Archive maio 2018

Filipenses

FILIPENSES/SÍNTESE

Esta é uma das cartas mais pessoais do apóstolo Paulo. Basta que observemos a freqüência da construção verbal da primeira pessoa do singular. O apóstolo escrevia a um grupo de amigos aos quais amava profundamente. Esta carta não se presta com facilidade a um esboço sistemático. Nela destaca-se com caracteres nítidos a solicitude de Paulo por estes crentes. Escreve-lhes, não tanto como o apóstolo fundador da igreja em Filipos, mas como seu pai em Cristo. Observa-se a diferença na saudação: não diz aqui “Paulo, apóstolo…”, sua introdução costumeira; diz, antes. “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo…”.
A nota dominante desta breve epístola é a alegria. E esta nota se faz mais notável ainda se levarmos em conta o fato de que Paulo a escrevia da prisão. As circunstâncias imediatas que rodeiam o crente não devem constituir-se em fatores que determinem sua atitude com respeito à vida em geral.
As notas gêmeas de humildade e solicitude pelos outros também são muito evidentes. Em vista do que Cristo realizou, não há lugar para a soberba no coração do filho de Deus. Em virtude do profundo exemplo lançado por Cristo, seus seguidores jamais devem adotar conduta egoísta.
Esta carta contém muito pouca teologia no sentido habitual que se dá a este termo. Contudo, uma exceção digna de nota é a grande passagem sobre a humilhação e exaltação de Cristo (2:5-11). Igualmente, a carta proporciona pouquíssimas instruções sobre ética. A carta contém advertências diretas e breves acerca dos que haviam causado ao apóstolo tantas dificuldades em outros lugares (3:2), porém não se refuta o erro teológico, nem se censuram com vigor as faltas dentro da igreja.

AUTOR

Presentemente, a opinião quase universalmente aceita é a de que Paulo foi quem escreveu esta epístola. Foi escrita da prisão, porém não se menciona o lugar onde estava dita prisão. Três localidades têm sido sugeridas: Roma, Cesaréia e Éfeso. Tradicionalmente, acredita-se que foi em Roma que o apóstolo a escreveu. Se situarmos a escritura desta carta próxima do encarceramento do apóstolo, a data seria por volta do ano 62 d.C.

Ralph A. Gwinn
Doutor em Filosofia e Letras

Efésios

EFÉSIOS/SÍNTESE

A epístola aos Efésios apresenta, de modo geral, doutrina na primeira metade e exortação na segunda; contudo, esta divisão não é absoluta. O discurso doutrinal é ocasionado pela situação prática, e as exortações se acham adornadas com formosas verdades.
O louvor inicial é de regozijo pelo plano de Deus para os crentes, mediante a redenção efetuada por Jesus Cristo e pela obra do Espírito Santo. Fazendo uma pausa para pronunciar duas orações (1:15-23 e 3:14-19), o apóstolo Paulo explica com minúcias as inferências e significados da redenção no que se refere a estar livre do pecado, à nova vida de vitória, e ao mistério da unidade de todos os crentes e sua união com Cristo.
Na segunda metade apresentam-se inferências de caráter ético segundo a unidade cristã, o novo andar, o amor, a humildade, as relações humanas construtivas, e a luta vitoriosa contra o mal, mediante a completa dependência das realidades espirituais.

AUTOR

Sem dúvida alguma, o apóstolo Paulo é o autor desta epístola. Nenhum dos antigos intérpretes da Bíblia parece discordar desta opinião. Conquanto a epístola tenha sido escrita também com a intenção de que circulasse entre outras igrejas da Ásia, não resta dúvida de que o autor tinha em mente, ao escrevê-la, a igreja que ele fundara na grande metrópole de Éfeso. As provas indicam que tanto o manuscrito como a doutrina nos ministram que a epístola esteve relacionada com a igreja de Éfeso desde época antiqüíssima. Parece que o apóstolo escreveu essa carta quando estava encarcerado em Roma, quase ao mesmo tempo em que escreveu as epístolas a Filemon e aos Colossenses, e que foi enviada por meio do mesmo amigo. Tíquico, que o estivera visitando (ano 62 ou 63 d.C.).

Wilber T. Dayton
Doutor em Teologia

Gálatas

GÁLATAS/SÍNTESE e AUTOR

O apóstolo Paulo escreveu esta carta aos gálatas convertidos em alguma época situada entre os anos 48 a 53 de nossa era. Mestres judaico-cristãos haviam procurado predispor contra o apóstolo os gálatas convertidos., dizendo-lhes que, como gentios, deviam ser circuncidados (5:2-6; 6:12-15) e praticar o ritual da lei (4:10) para que fossem salvos. Mediante uma carta, Paulo reivindica sua autoridade como expositor do evangelho, e condena a posição judaizante como legalismo anticristão.
Paulo sustenta que os crentes, tanto judeus como gentios, desfrutam de completa salvação em Cristo. São justificados (3:6-9), adotados (4:4-7), renovados (4:6; 6:15), e feitos herdeiros de Deus segundo a promessa do pacto com Abraão (3:15-18). Desse modo, a fé no Cristo do Calvário liberta-nos para sempre da necessidade de buscar a salvação pelas obras da lei. De qualquer maneira, esta busca é impossível, uma vez que a lei não salva, nem era esse seu propósito (3:19-24). Os crentes não devem, portanto, voltar ao princípio de guardar a lei como base para a salvação, pois do contrário voltam à escravidão (5:1) privando-se da graça de Cristo (5:2-4). Devem, antes, apegar-se à liberdade que Cristo lhes deu, e servir a Deus e ao próximo no poder do Espírito, como homens livres (5:13-18), realizando com alegria a vontade de seu Salvador (6:2).
O argumento de Paulo demonstra que todas as versões legalistas do evangelho são corrupções deste, e que o gozo da liberdade cristã depende de ver que a salvação é somente pela graça, unicamente mediante Jesus Cristo, recebida exclusivamente pela fé.

James I. Packer
Doutor em Filosofia e Letras

II Coríntios

II CORÍNTIOS/SÍNTESE

Nenhum esboço breve pode proporcionar idéia da riqueza e simpatia desta extraordinária epístola. O principal motivo que inspira Paulo a escrevê-la é o de reivindicar sua autoridade apostólica, especialmente quando a igreja de Corinto tinha sido invadida por falsos apóstolos que procuravam minar sua autoridade e desencaminhar os crentes do evangelho que haviam recebido por seu intermédio. Escreve, contudo, não com caráter autoritário, mas antes como pai espiritual dos crentes de Corinto, aos quais ele ama e quer que respondam com reciprocidade ao seu amor e permaneçam fiéis as verdades que ele lhes comunicou. A situação em Corinto chegou a tal ponto que Paulo se vê na obrigação de falar por si mesmo. Conquanto apele para o conhecimento pessoal e íntimo que o povo tinha dele e de seu caráter, e lhes lembre os profundos sofrimentos e as vicissitudes porque passou a fim de comuncar-lhes a mensagem da salvação, ele o faz com humildade e sinceridade transparente, e por certo com relutância. Em toda a epístola, a dignidade, a devoção, a fé serena e a apaixonada consagração do apóstolo Paulo se destacam com um intenso resplendor que abranda o coração de todos, com exceção de alguns obcecados e indiferentes. Apresenta-se a si mesmo perante seus leitores como aquele que em sua própria pessoa é fraco e indigno, mas que, por meio dessa fraqueza, a graça e o poder do Deus Todo-Poderoso são magnificados. Em contraste com a auto-estima e interesses pessoais dos falsos apóstolos, contrapõe-se a abnegação de Paulo: tudo é de Deus e para a glória de Deus. O traço marcante em toda a epístola é o da segurança divina: “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (12:9). Esta nova descoberta desta epístola em nossos dias, com sua doutrina de reconciliação em Cristo e seu tema de glória mediante o sofrimento, significaria uma renovação da visão e vitalidade do povo de Deus, e por este meio, uma bênção às multidões que vivem ainda em trevas espirituais.

AUTOR

Não existem dúvidas razoáveis e respeito da paternidade literária de Paulo no que se refere a esta epístola. A segunda epístola aos Coríntios foi escrita no mesmo ano em que o foi a primeira, provavelmente seis meses depois.

Philip E. Hughes
Doutor em Literatura

I Coríntios

I CORÍNTIOS/SÍNTESE

A primeira epístola aos Coríntios não é apenas uma carta na qual o apóstolo Paulo ministra conselhos e instrução sobre assuntos de importância da fé e do comportamento cristão; também jorra luz reveladora sobre determinados problemas com os quais se defronta uma jovem igreja não muito depois de sua inauguração, na metade do primeiro século de nossa era. O apóstolo Paulo havia levado a mensagem de Cristo à cidade de Corinto quando realizou sua segunda viagem missionária. Esta cidade constituía um tremendo desafio ao evangelho já por tratar-se de um grande centro cosmopolita de comércio do mundo antigo, já por ser reconhecido centro de libertinagem e desregramentos. Se a mensagem da cruz tinha poder para transformar a vida de homens e mulheres de tal ambiente, então essa mensagem era realmente poderosa. E foi precisamente isto que ocorreu. Além do mais, os membros desta jovem igreja desfrutavam de uma variedade de dons espirituais, e esse fato constituía confirmação tanto para eles como para o mundo, de que Deus se achava presente manifestando-se poderosamente em seu meio.
Todavia, não transcorreu muito tempo sem que surgissem entre os crentes graves erros de doutrina e de conduta; tais erros ameaçavam a vida mesma daquela coletividade cristã. A primeira carta aos Coríntios destina-se à correção desses erros. Em primeiro lugar, haviam surgido deploráveis divisões na igreja; essas divisões se haviam transformado em partidos hostis, que abalavam os próprios alicerces da unidade que deve vincular todos quantos se dizem irmãos em Cristo. Em segundo lugar, um de seus membros era culpado de grosseira imoralidade, um tipo de imoralidade que até mesmo aquela sociedade licenciosa e dissoluta teria condenado; a despeito disso, a congregação de crentes não havia disciplinado o ofensor nem o havia expulsado da comunhão. Em terceiro lugar, os membros daquela coletividade cristã denunciavam-se uns aos outros perante tribunais pagãos, aos quais recorriam para solucionar pendências que surgiam entre eles, em vez de resolverem suas dificuldades no espírito do amor cristão dentro da igreja, ou se disporem, segundo o exemplo de Cristo, a sofrer o mal sem vingar-se. Em quarto lugar, alguns haviam cometido atos imorais com prostitutas e procuraram justificar tal comportamento afirmando que o corpo apenas estivera envolvido, e que os atos do corpo não tinham consequência. Em quinto lugar, a ceia do Senhor, que deveria ter sido uma expressão de harmonia e amor, degenerara-se em ato de irreverência, de glutonaria e de comportamento pouco caritativo. Em sexto lugar, comportavam-se desordenadamente quando se reuniam para os cultos públicos, especialmente no que respeita ao exercício dos dons espirituais com os quais haviam sido dotados. Paulo julga necessário lembrar-lhes que o dom do amor é o maior dos dons e o que mais deve ser buscado, fora do qual todos os demais dons estão destituídos de valor. Em sétimo lugar, insinuara-se na igreja de Corinto um ensino herético que, negando a ressurreição de Cristo e igualmente a possibilidade de qualquer ressurreição, desferia um golpe severo contra o fundamento mesmo da fé cristã. Todos estes assuntos, cada um deles vergonhoso de per sí, recebem cuidadosa e urgente atenção nesta carta.
O apóstolo Paulo oferece também instrução sobre outras questões que os coríntios haviam mencionando em carta que le enviaram. Tais questões podem ser assim resumidas: Era aconselhável ao crente casar-se? Deve o marido ou a esposa, depois de converter-se, continuar vivendo com um cônjuge inconverso? Qual devia ser a atitude do crente quanto ao comer carne que anteriormente havia sido oferecida em sacrifício a ídolos? Devia a mulher cobrir a cabeça quando assistia ao culto público? Qual o significado da variedade de dons espirituais? Que medidas deveriam ser tomadas com respeito à coleta de fundos para socorro aos crentes pobres de Jerusalém?
Seria erro imaginar que o conteúdo desta epístola se aplica somente a esta situação particular da igreja do primeiro século em Corinto, porque, muito embora as circunstâncias e a forma externa dos problemas da igreja variem de época para época, em sua essência continuam sendo os mesmos, e os princípios aqui lançados pelo apóstolo são aplicáveis a nosso tempo e situação, com tanta eficácia como o foram naquele tempo.

AUTOR

A evidência interna e a externa mostam que o apóstolo Paulo foi o autor desta epístola. Não é possível fixar com certeza a data em que foi escrita, mas provavelmente o foi na primavera do ano 55, 56 ou 57. Naquele tempo o apóstolo encontrava-se em Éfeso, durante o correr de sua terceira viagem missionária.

Philip E. Hughes
Doutor em Literatura

Romanos

ROMANOS/SÍNTESE

Depois da saudação e da ação de graças, o apóstolo Paulo, referindo-se a um texto do Antigo Testamento (Habacuque 2:4), apresenta o tema da epístola que é a justificação pela fé.
Os três capítulos iniciais estabelecem o primeiro ponto principal: que todos os homens são pecadores. Paulo começa por uma descrição da crassa idolatria e imoralidade dos gentios; contudo, em virtude da revelação do poder de Deus na natureza, e pelo testemunho de suas próprias consciências de que “são dignos de morte os que tais coisas praticam”, os gentios são considerados responsáveis.
Ao mesmo tempo, os judeus são igualmente pecadores, muito embora sejam eles objeto dos oráculos divinos. Os gentios pecaram sem lei – perecerão sem lei, os judeus pecaram sob a lei – serão julgados pela lei. “Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus: mas os que praticam a lei hão de ser justificados” 2:13.
Contudo, não há praticantes da lei, quer judeus quer gentios; porque “Não há um justo, nem um sequer”(3:10). “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele”(3:20).
Portanto, se alguém vier a ser justificado, Deus mesmo terá de proporcionar misericordiosamente a justiça necessária para a absolvição. Isto se efetua em virtude de sacrifício propiciatório de Cristo. Seu sangue derramado satisfaz a justiça do Pai, de maneira que Deus pode ser justo e ao mesmo tempo justificador daquele que tem fé em Jesus.
O capítulo 4, citando a Abraão como principal exemplo, explica mais extensamente de que forma Deus atribui a justiça sem as obras. A seguir, o capítulo 5 estabelece um paralelo entre Adão e Cristo. Todos aqueles a quem Adão representava foram feitos pecadores por sua ofensa; todos quantos estão em Cristo são feitos justos por sua obediência.
Em resposta à acusação de que a justificação pela fé estimula o pecado, “Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?” (6:1), o apóstolo Paulo explica que o crente sincero recorreu a Cristo a fim de escapar do pecado. A justificação produz santificação, e essa luta pela santificação pessoal (7:14-25) é prova de que escapamos à condenação. Portanto, em virtude do amor imutável de Deus (8:39), podemos ter a segurança da salvação.
A justificação pela fé, a rejeição dos judeus e a inclusão dos gentios são consequentes com as promessas de Deus a Israel. Tais promessas foram feitas aos descendentes espirituais de Abrão. Deus escolheu a Isaque e rejeitou a Ismael. Deus escolheu a Jacó e rejeitou a Esaú. Estas escolhas e exclusões são inerentes às próprias promessas. A eleição de Deus é soberana. É como o oleiro que fabrica vasos para determinados fins.
Contudo, chegará o dia quando, em geral, os judeus serão enxertados de novo.
Em virtude destas misericórdias divinas, todo crente deve cumprir sua função particular na igreja, com diligência e singeleza. De igual maneira, no país, todo crente deve ser bom cidadão.
Finalmente, Paulo expressa a esperança de visitar Roma em sua viagem com destino à Espanha, e termina a carta com saudações pessoais.

AUTOR

A epístola aos Romanos, a mais longa, a mais sistemática e a mais profunda de todas as epístolas, e talvez o livro mais importante da Bíblia, foi escrita pelo apóstolo Paulo (1:1, 5). Naquela ocasião ele se encontrava em Corinto (15:26; 16:1, 2). A cuidadosa composição da carta sugere que depois de algumas experiências tempestuosas ali, desfrutou um período de tranqüilidade antes de receber dinheiro de ajuda aos santos em Jerusalém. Isto situa a carta por volta do ano 58 de nossa era. Diferentemente das demais epístolas, a dirigida aos romanos foi escrita a uma igreja que ele nunca havia visitado (1:10, 11, 15).

Gordon H. Clark
Doutor em Filosofia e Letras

Atos

ATOS DOS APÓSTOLOS/SÍNTESE

Em Atos 1:8 o Cristo ressurreto declara o propósito do batismo no Espírito Santo: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Em virtude de sua localização e ênfase, este versículo parece designar com clareza o objetivo do livro de Atos dos Apóstolos. O livro constitui a principal história do estabelecimento e da extensão da igreja entre judeus e gentios, mediante a gradual localização de centros de influência em pontos destacados do Império Romano, desde Jerusalém até Roma. Além disso, Lucas organiza este material histórico de tal maneira que o progresso do evangelho é de imediato evidente. Trata-se de uma história gráfica, cujo objetivo não é apenas narrar, mas edificar. Portanto, podemos considerar os Atos dos Apóstolos como um sermão de caráter histórico acerca do poder cristão: sua fonte e seus efeitos. Sua fonte é o batismo pentecostal com o Espírito Santo, e o efeito é o poder de dar testemunho perante o mundo. Esse testemunho é apresentado como resumo no sermão pentecostal de Pedro dirigido aos membros da dispersão congregados em Jerusalém, e em pormenores progressivas através do restante do livro.

AUTOR

A opinião quase universalmente aceita é que o evangelho segundo Lucas e os Atos têm um autor comum. O autor dos Atos dos Apóstolos começa fazendo referência ao “primeiro tratado” que se interpreta como a primeira prestação ou entrega do mesmo volume histórico, dirigido a Teófilo, a mesma pessoa. Existem, pelo menos três argumentos que confirmam a paternidade literária de Lucas: Primeiro, existe a evidência do uso da primeira pessoa plural nas seções 16:10-17; 20:5-15; 21:1-18; 27:1-28:16, sugerindo que o autor era testemunha ocular, como o foi Lucas. Segundo: há provas de que o escritor era médico. E, terceiro, uma ampla e convincente tradição apóia a paternidade literária de Lucas.
Aparentemente, o livro de Atos dos Apóstolos foi escrito em derredor da época do primeiro encarceramento de Paulo, com cujo relato termina o livro.

John H. Gerstner,
Doutor em Filosofia e Letras

João

JOÃO/SÍNTESE

O quarto evangelho declara, de forma inequívoca, a finalidade do livro: “Jesus… operou também… muitos outros sinais… Estes, porém, foram escritos para que creais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais vida em seu nome” (29:30, 31).
Desde o prólogo (1:1-18) com sua frase culminante, “e vimos a sua glória”(vers. 14), até à confissão de Tomé, no final, “Senhor meu, e Deus meu!” (20:28), o leitor sente-se impulsionado constantemente a pôr-se de joelhos. O Senhor Jesus destaca-se como algo mais que mero homem; em realidade, mais ainda que um enviado sobrenatural ou representante da Deidade. Ele é o verdadeiro Deus que veio em carne.
Todavia, o povo hebreu, que esperava seu futuro redentor, necessitava de provas das afirmativas de Jesus de que ele era o Messias prometido do Antigo Testamento. João apresenta essas verificações. Milagres e discursos escolhidos de um período de vinte dias no ministério público de Jesus, ministério que durou três anos, confirmam-no dramaticamente como o Cristo, o Filho de Deus. Oito sinais ou maravilhas revelam não só o seu poder, mas atestam sua glória como Portador divino da graça redentora. Jesus é o grande “Eu sou”, a única esperança de uma raça que de outra sorte não teria esperança alguma. A água transforma-se em vinho; os mercadores e os animais destinados aos sacrifícios são expulsos do templo; o filho do nobre é curado à distância; o paralítico recebe cura no dia de descanso; a multiplicação dos pães; Jesus anda sobre o mar; o cego de nascença recebe a vista; Lázaro é ressuscitado. Estes milagres revelam quem é Jesus Cristo e o que faz. Progressivamente, João apresenta-o como Fonte da nova vida, a Água da vida e o Pão da vida. Por fim, seus próprios inimigos retrocederam e caíram por terra ante o “Eu sou”, que se entrega voluntariamente para sofrer na cruz (18:5, 6).
Procurando resgatar o homem do pecado e do juízo, e restaurá-lo à comunhão divina e santa, o Logos eterno faz deste mundo sua residência transitória (1:14). Em virtude de sua graça, o homem caído está capacitado para residir em Deus (14:20) e, finalmente, nas mansões eternas (14:2, 3). Em sua própria pessoa Jesus cumpre o significado das profecias e festas do Antigo Testamento. Por fim, triunfa sobre a própria morte e o túmulo, e deixa a seus seguidores um legado extraordinário para que levem avante esta missão de misericórdia, única na história.
Deslocando-se de uma eternidade para outra, o quarto evangelho vincula o destino de judeus e gentios como parte da criação toda à ressurreição do Logos encarnado e crucificado.

AUTOR

Muito embora o quarto evangelho não mencione de modo definitivo seu autor, não resta dúvida de que foi João, o amado, quem o escreveu. Somente uma testemunha ocular, do círculo íntimo dos seguidores do Senhor Jesus Cristo (compare 12:16; 13:29) poderia proporcionar-nos determinados pormenores do livro. Além disso, o relato especial e às vezes indireto da participação de João confirmaria sua paternidade literária (1:37-40; 19:26; 20:2, 4, 8; 21:20, 23, 24). Exegetas conservadores colocam sua data depois que foram escritos os outros evangelhos, portanto, entre o ano 69 da nossa era (antes da queda de Jerusalém) e o ano 90.

Carl F. H. Henry
Doutor em Filosofia e Letras

Lucas

LUCAS/SÍNTESE

O tema que destaca no evangelho segundo São Lucas é: Jesus é o Salvador divino. No princípio, tudo se concentra nesta verdade surpresa. Antes mesmo de seu nascimento, o anjo enviado por Deus ordena a Maria que dê ao menino o nome de Jesus (que significa o Senhor salva, 1:31). Aos pastores o anjo deu “novas de grande alegria” (2:10) de que na cidade de Davi nascera o Salvador, que é Cristo, o Senhor (2:11). E no primeiro anúncio público que o Senhor fez a respeito de sua missão, afirmou de modo inequívoco que ele era o divino Salvador acerca de quem os escritos sagrados do Antigo Testamento faziam referência (4:17-21).
A partir desse momento, observamos de que forma o Senhor Jesus se revela como o Redentor divino que veio para salvar os perdidos. Salva do poder dos espíritos maus (4:33-36), de enfermidades graves (4:38-40), da lepra (5:12, 13) e, inclusive, do poder e das conseqüências do pecado (5:20-26). Além disso, Lucas nos apresenta Jesus como o Salvador Todo-poderoso que tem poder e autoridade divina para ressuscitar mortos (7:12-17). Sendo um com o Pai, tem igualmente poder sobre a natureza e pode salvar seus discípulos de uma violenta tempestade (8:22-25), e livrar da fome a multidão (9:11-17).
Depois de haver-se revelado como o Salvador Todo-poderoso e de os apóstolos o haverem confessado como o Cristo (9:18-20), Jesus começa a mostrar a seus seguidores que para ele poder ser o Salvador divino deles, primeiro ele devia sofrer e morrer (9:22).
As palavras pronunciadas pelo Senhor Jesus em 19:10, “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”, cristalizam a maravilhosa mensagem do evangelho segundo São Lucas.
Lucas demonstra-nos que o Senhor Jesus veio como Salvador em sentido universal – para os povos de todos os tempos e de todas as condições, para os judeus (1:13, 2:10), para os samaritanos (9:51-56), para os pagãos (2:23; 3:6, 38), para os publicanos, para os pecadores e desprezados (7:37-50) bem como para pessoas respeitáveis (7:36), para os pobres (1:53) e também para os ricos (19:2; 23:50).
Ao mesmo tempo, nosso Senhor advertiu seriamente a todos de que embora ele tivesse vindo para salvar e não para destruir, todos quantos se negavam a ser salvos por ele trariam sobre si mesmos sofrimentos (19:27, 41:44).
O evangelho segundo São Lucas proclama as boas-novas do Senhor Jesus, que não somente afirmava ser o Salvador divino, mas também se revelava como o Redentor Todo-Poderoso e Unigênito Filho de Deus. Mediante sua ressurreição e ascensão (24:50-53), demonstrou finalmente a verdade de suas afirmativas e a autenticidade de sua auto-revelação como Salvador do mundo, enviado, aprovado e equipado por Deus (4:17-21; 10:22).

AUTOR

Sem dúvida alguma, é correta a tradição que afirma ser Lucas, o médico amado (Colossenses 4:14), o autor deste evangelho. Como companheiro de Paulo (Filemon 24; II Timóteo 4:11; Colossenses 4:10-14; Atos 1:1; 20:5 – 21:17; 27:2 – 28:16), Lucas tinha muitos contatos pessoais com apóstolos e outras testemunhas da história do evangelho. Tudo isto, somado à sua base cultural grega, seu preparo intelectual e sua íntima relação com homens como Marcos (que também escreveu um evangelho), capacitaram-no para escrever um evangelho, digno de crédito, amplo e formoso. Provavelmente, escreveu-o entre os anos 64 e 70 de nossa era. Pouco depois, escreveu os Atos dos Apóstolos.

J. Norval Geldenhuys
Mestre em Teologia

Marcos

MARCOS/SÍNTESE

O segundo evangelho tem traços que se destacam sobremaneira. A personalidade de Pedro reflete-se quase em cada uma de suas páginas. Assemelha-se a ele pela rapidez de movimentos, pela atividade, pela impulsividade. A rapidez de ação é um dos traços principais. o relato passa de um acontecimento a outro com extraordinária rapidez. Com propriedade tem-se denominado o evangelho de Marcos de filme do ministério de Jesus. A intensidade dos pormenores é outro de seus característicos distintivos. Embora Marcos seja o mais curto dos quatro evangelhos, com frequência narra pormenores vividos que não se encontram nos relatos do mesmo assunto em Mateus ou Lucas. Dispensa-se extraordinária atenção ao aspecto e aos gestos de Jesus.
O terceiro característico saliente é a descrição pictórica. Ao relatar a alimentação dos cinco mil, Marcos diz-nos que o povo se assentou em “ranchos” ou grupos sobre a erva verde.
O evangelho segundo São Marcos é, preeminentemente, o evangelho da ação. Não somente abrange o discurso mais longo de Jesus (o discurso proferido no monte das Oliveiras), como não deixa passar fatos ou ações. Ressalta antes as obras que as palavras de Cristo. Marcos registra dezoito dos milagres de Jesus, mas apenas quatro de suas parábolas.
Seu modo de acentuar as ações é apropriado em um evangelho escrito provavelmente em Roma e dirigido principalmente aos romanos. Marcos emprega dez latinismos e faz menos referências ao Antigo Testamento que os demais evangelistas. Explica os costumes judeus aos leitores romanos. Nem sequer emprega a palavra lei, que aparece oito vezes em Mateus, nove vezes em Lucas e quatorze vezes em João.
Considerando que escreve aos romanos, omite qualquer referência à genealogia de Jesus, bem como à sua infância. Os romanos estavam mais interessados no poder do que em genealogias. Daí observamos que neste evangelho Jesus é apresentado como o grande Vencedor da tempestade, dos demônios, da enfermidade e da morte. Ele é o Servo do Senhor (compare-se com Isaías): primeiro o Servo vencedor, depois o Servo sofredor e, finalmente, o Servo triunfante, na ressurreição.
Conquanto o evangelho segundo São Marcos seja antes de tudo histórico, observa-se nele um forte teor teológico. O primeiro versículo dá-nos o traço característico: “Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Repetidas vezes acentua-se a Deidade de Jesus, seja explícita ou implicitamente. É o Filho do Homem, o Messias, aquele por quem esperaram os longos séculos. Em uma das mais vigorosas passagens teológicas dos evangelhos sinópticos afirma-se a declaração de Jesus de que o Filho do Homem veio para “dar a sua vida em resgate de muitos”(10:45). Conforme o diz o primeiro versículo do livro, é principalmente o evangelho de Jesus Cristo, as boas-novas da salvação mediante sua morte expiatória.

AUTOR

De modo quase unânime a igreja primitiva atribui o segundo evangelho a Marcos, primo de Barnabé e companheiro de Paulo e de Pedro. A maioria dos intérpretes da Bíblia sustenta que este é o mais antigo dos quatro evangelhos. Pode afirmar-se com segurança que foi escrito entre os anos 50 e 70 de nossa era.

Ralph Earle
Doutor em Teologia