A METODOLOGIA DA FILOSOFIA

 

1. MÉTODOS DO MUNDO ANTIGO

 

1.1 O método de Sócrates: A maiêutica

 

Sócrates usava o método de perguntas e respostas, que consistia em ajudar as pessoas por mais ignorantes e incultas que fossem, a gerar dentro de suas mentes toda a sabedoria incubada não revelada anteriormente, criando ambiente favorável para que os indivíduos dessem a luz às sua idéias. Desse modo Sócrates era tido como um “parteiro”, ajudando no parto da manifestação da sabedoria mesmo do mais humilde escravo, por acreditar que a verdade é inata à mente humana, bastando para tanto fazer com que elas ponham tudo para fora.

Tanto Sócrates, como Platão que foi seu discípulo, acreditavam que a verdade era inata a todos os homens que a conheciam em uma existência prévia. E assim que a pergunta de modo acertado é feita, a memória da pessoa é estimulada a evocar aquilo que já sabe.

O método de perguntas e respostas é muito interessante em muitas ocasiões, como forma de conhecer-se a verdade contida em cada pessoa humana, contudo os conceitos de Sócrates são duramente criticados por filósofos contemporâneos, quanto às capacidades inatas do homem, principalmente por afirmar a sua preexistência.

Outro fator dentro deste método que é olhado com certa desconfiança, é o fato de que quem pergunta poderá levar o perguntado a predispor a resposta, assim a sabedoria está com aquele que pergunta e não com aquele que é perguntado.

A filosofia contemporânea acredita que a mente humana começa como uma tábua rasa, que com o decorrer dos anos vai somando idéias e experiências.

Eu me identifico mais com a filosofia contemporânea que é contrária ao método de Sócrates, porque creio ser impossível alguém ter conhecimento preexistente. Além do mais esta filosofia muito se parece com a doutrina espírita da reencarnação. Eu prefiro me nortear pela teologia bíblica no que se refere ao conhecimento da pessoa humana em todos os seus estágios.         

 

1.2 O método de Zenão: Reductio ad Absurdum

 

Este método visa determinar a verdade ao reduzir posições alternativas ao absurdo. Este método começou com o ensino de Parmênides  que afirmava que a realidade do universo era una e não múltipla.

A partir desse presuposto Zenão procurou comprovar esta filosofia especulativa, demonstrando que o conceito de realidade como sendo múltipla levava a contradições. Assim, o método de Zenão se tornou de valor permanente para a filosofia, porque nenhuma posição que leva a contradição poderá ser considerada verdadeira. Logo, a lei da não-contradição é um dos princípios fundamentais do pensamento lógico. Este método é útil em argumentos, pois se poderá assumir premissas de um oponente, e comprovar que são falsas por meio de reduzi-las a uma contradição.

Alguns filósofos argumentam que o método de Zenão pode demonstrar que algumas posições são falsas, mas não pode demonstrar quais são as verídicas.   

 

1.3 O método de Aristóteles

 

O método de Aristóteles consistia nas formas indutiva e dedutiva de raciocinar. O raciocínio dedutivo consiste em argumentar do geral para o particular. Por exemplo:

 

Todos os gatos miam (premissa)

Mimi é um gato          (premissa)

Logo, mimi mia          (conclusão)

 

O raciocínio indutivo consiste em argumentar do particular para o geral. Por exemplo:

 

Mimi mia (premissa)

Mimi é um gato (premissa)

Logo, todos os gatos miam. (conclusão)

 

As dificuldades com o método dedutivo consiste na falta de premissas universalmente verdadeiras, pondo em cheque a eficácia do método de Aristóteles para descobrir a verdade. A conclusão é considerada de modo lógico e válido a partir das premissas. Quando dizemos que a primeira premissa é verdadeira, devemos considerar a existência de argumentos válidos e argumentos sólidos. No exemplo citado temos a “premissa” — “Todos os gatos miam”, que não pode ser considerada universal porque pode haver algum gato, em algum lugar, que por algum motivo não mia.

 

2. MÉTODOS DO MUNDO MODERNO

 

O raciocínio indutivo é mais característico do período moderno, em face de estar estritamente associado com a metodologia científica, embora tenha sido bastante utilizado pelos filósofos antigos.

 

2.1 O método indutivo

 

O filósofo Francis Bacon derrubou o método dedutivo antigo para chegar-se à verdade científica, substituindo-o pelo método indutivo novo, que consistia mais na observação extensiva e experimentação sistemática.

 

2.2 Os cânones de Indução de Mill

 

Este método está resumido pelas seguintes regras:

 

1.       O Método da Concordância. O único fator comum a todas as situações

antecedentes onde ocorre um efeito é provavelmente a causa do efeito.

2.       O Método da Diferença. Sempre que um efeito ocorre quando “A” está

presente, mas não ocorre quando está ausente, então “A” é

provavelmente a causa do efeito.

3.       O Método Conjunto. Combinar os dois primeiros métodos quando um

método sozinho não dá um resultado específico.

4.       O Método das Variações Concomitantes. Quando um fator antecedente

varia concomitantemente com o fator conseqüente, então o primeiro é

provavelmente a causa do segundo.

Alguns opositores a este método argumentam que a pessoa nunca pode ter a certeza de que chegou a qualquer verdade através do método indutivo a não ser que tenha observação completa ou universal, o que é impossível.

 

2.3 O método científico

 

Este método é uma combinação dos métodos dedutivo e indutivo, com mais um elemento adicional “adutivo”, tendo como elementos básicos os seguintes:

 

1.       A situação que gera o problema. A preocupação porque João ficou doente após

o jantar.

2.       A formulação do problema. Por que João, que tem muita saúde, ficou doente

após o   jantar?

3.       A observação de fatos relevantes. No jantar, João comeu pizza com aliche,

tomou leite, e comeu sorvete de baunilha.

4.       O emprego de conhecimentos prévios:

a)      João freqüentemente come pizza sem ficar doente;

b)      usualmente toma leite sem problemas;

c)       o sorvete é sua sobremesa predileta; e

d)      esta é a primeira vez que João teve aliche na sua pizza;

5.  A formulação de uma hipótese. O aliche era a causa da doença de João;

6.  Dedução da hipótese. Se João comer aliche outra vez, ficará doente.

7.       Testando a hipótese.:

a)      João come a mesma comida, sem o aliche, na noite seguinte, e não fica doente.

b)      João come a mesma comida, com aliche, na terceira noite, e fica doente outra vez.

Conclusão: O aliche deixa João doente.

O método científico é considerado como auto-corretivo, isto é, de continuo a pessoa conserva suas conclusões abertas para mais confirmação ou refutação. Contudo, as conclusões devem ser sempre tentativas, visto que as evidências são apenas fragmentárias.

 

3. MÉTODOS CONTEMPORÂNEOS

 

Existem três métodos que se destacam na busca da verdade no mundo contemporâneo: o existencialismo, a fenomenologia, e o método analítico.

 

3.1 O método existencial

 

O filósofo Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo e ao aplicar o seu método existencial não nega o método científico objetivo para chegar-se a verdade, acreditando mais na verdade subjetiva, chegando a declarar que:  — “a verdade é a subjetividade”. Com isso não queria dizer que qualquer crença subjetiva é verdadeira, mas que a não ser que alguém acredite em alguma coisa de modo subjetivo e apaixonado, não possui a verdade.

A verdade é sempre pessoal e não meramente proposicional. Ninguém obterá a verdade pela mera observação, mas sim, pela obediência; ninguém obterá a verdade pelo fato de ser um espectador, mas sim pelo fato de ser um participante da vida; a verdade é achada no concreto, nunca no abstrato; no existencial, não no racional; na realidade a pessoa se coloca na verdade somente mediante um ato da vontade, por meio da fé. Não é uma idealização da mente, mas é através de uma decisão da vontade que a pessoa chega a conhecer a verdade. A verdade não está na área do racional, mas sim no “paradoxal”.

Um dos aspectos mais valiosos da metodologia existencial está no equilíbrio corretivo que traz para a abordagem puramente científica à verdade. A verdade, especialmente a verdade religiosa, é pessoal. A vida é mais que meros objetivos; há sujeitos e pessoas.

Algumas desvantagens deste método: leva facilmente ao subjetivismo. Como pode a pessoa evitar fazer dos seus próprios sentimentos o teste da verdade? Como pode evitar o engano e a ilusão?

 

3.2 O método fenomenológico

 

 Este método é uma tentativa de voltar a uma abordagem pré-teorética às consciências primárias da pessoa. Dar uma descrição puramente “neutra” da consciência que a pessoa tem do mundo, antes dela chegar a pensar acerca dele de modo reflexivo. É um método sem pressuposições — que deixa os meros fatos da experiência primária da pessoa “falarem por si mesmos”.

Usando o método fenomenológico Matin Heidegger aplicou-o a um estudo do homem e concluiu que o homem é um ser que está presente; o homem tem um senso de angústia; é um ser lançado do mundo e seguindo a direção da morte (do nada) sem qualquer explicação do “por que há algo ao invés de nada”. O homem como um ser-indo-para-o-nada, portanto, é a estrutura fundamental da realidade descoberta por este método.

As objeções a este método ficam por conta da dúvida de que existam quaisquer maneiras de abordar o mundo totalmente sem pressuposições.

A fenomenologia é valiosa à medida em que afirma que a subjetividade não deve ser excluída do âmbito da verdade. Além disto, procura ser descritiva e objetiva acerca das experiências que a pessoa tem do mundo.

    

3.3 O método analítico

 

As duas correntes principais da metodologia analítica contemporânea, estão relacionadas primariamente com à verificação ou confirmação e a outra com a elucidação:

 

3.3.1 O método da verificação

 

A eliminação da metafísica no método da verificação é baseada no princípio de que para uma declaração fazer sentido, deve ser ou puramente definicional (analítica) ou, senão, verificável (sintética) por um ou mais dos cinco sentidos. Todas as demais declarações (éticas, teológicas e metafísicas) são contra-senso, ou sem sentido.

As objeções a este método são em decorrência do fracasso do princípio da verificação que em algumas formas é exclusivo demais e em outras, é inclusivo demais.

Outro lado negativo da verificação é o que se chamou de “princípio da falsificação”, que consiste em afirmar que — “qualquer declaração ou proposição não faz sentido a não ser que seja sujeita a ser comprovada falsa”.

 

3.3.2 O método da elucidação

 

Este método se baseia na crença de que enigmas filosóficos pudessem ser solucionados pela análise (elucidação) da linguagem. Logo, onde uma pergunta pode ser feita, também pode ser respondida, contudo nem todas as perguntas podem ser feitas de modo significativo. Em resumo a experiência é o tribunal de apelo que julga o significado. O sentido é determinado pelo modo como uma palavra é usada naquele contexto. Por uma análise da linguagem, pode-se elucidar o significado da linguagem conforme a intenção de seus usuários.

A elucidação portanto, é um elemento-chave na busca da verdade, porque a ambigüidade leva a confusão. Por outro lado, as alegações quanto à verdade devem ser testadas ou confirmadas, pois há muitas alegações conflitantes quanto à verdade.

 

CONCLUSÃO

 

Existem muitos métodos de se fazer filosofia, sendo que alguns métodos são melhores adaptados a certos tipos de busca da verdade, e outros são melhores adaptados a outros tipos de respostas filosóficas. Por exemplo, a verificação empírica é apropriada à história, enquanto que o método científico a um estudo do mundo natural. Contudo, nenhum dos dois é adequado para a descoberta da verdade relativa à verdade pessoal ou aos valores. Para tanto, um método existencial ou fenomenológico é mais apropriado. Já o método dedutivo somente pode ser usado onde a pessoa tem acesso a premissas matemáticas, teológicas, ou filosóficas com base nas quais pode fazer deduções lógicas. É um erro imaginar-se que existe um só método pelo qual poder-se-á chegar a descoberta da verdade.

Não existe convergência filosófica entre filósofos seculares e filósofos cristãos, quanto ao método a ser aplicado para justificar as crenças religiosas. Alguns filósofos cristãos são fideístas, e sustentam que não há nenhum modo racional para justificar uma crença religiosa, insistindo que nenhuma metodologia filosófica pode eliminar a possibilidade da revelação divina. A existência do Deus que Se revelou na sagrada Escritura é uma crença essencial do cristianismo. Os filósofos cristãos asseguram que todas as filosofias que argumentam a impossibilidade da revelação de Deus estão condenadas ao fracasso, enquanto que o desafio da filosofia cristã é “destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus”.  

 

Augusto Bello de Souza Filho

Bel. em Teologia

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